Ao longo da vida, todos temos pessoas que nos inspiram: familiares, amigos, celebridades… Eu? Também tenho carros que me inspiram. E claro, tinha de começar pela estrela principal: o BMW Isetta.
Sim, esse mesmo. O carro que parece meio automóvel, meio eletrodoméstico — e que, ainda assim, é dono de um carisma que muitos supercarros não conseguem comprar.
O Isetta foi o primeiro carro do meu pai e está na nossa família há 44 anos. Ou seja, é praticamente o irmão mais velho.
Nunca ouviste falar sobre este pequeno e encantador automóvel? Vamos por partes.
Antes de mais, deixemos algo muito claro: isto não é um BMW comum.
❌ Nada de motor 6 cilindros em linha.
❌ Nada de tração traseira pronta para derrapagens dignas de filme.
❌ Nada de slogan “puro prazer de condução”.
O que temos aqui é, à primeira vista, o que muitos chamariam de “papa-reformas”, mas em versão bávara e adorável. Mas antes de te rires, aviso já: este pequeno ovo motorizado ajudou a salvar a BMW. E não estou a exagerar.
Foi concebido como a solução de transporte de baixo custo para milhares de pessoas no período pós-guerra. O carro traz o emblema da BMW, mas as suas raízes são italianas — nasceu na Iso SpA, conhecida por fabricar frigoríficos. Claramente fazia sentido juntar essas duas ideias e criar um carro com porta frontal.
Apresentado em 1953, o Isetta não começou logo a fazer sucesso. Mesmo participando em corridas como a Mille Miglia, só em 1955 é que a Iso começou a licenciar os projetos do Isetta e finalmente alcançou o sucesso.
Na altura, a BMW estava a atravessar uma crise financeira. A Baviera precisava de mobilidade acessível, e o mundo ainda não estava preparado para receber um Série 5. Então, o que é que a BMW fez? Licenciou o design italiano, adquiriu as ferramentas para fabricar o Isetta, e reestruturou o carro entre 1955 e 1962, ao ponto de as peças de um Iso não serem comuns com as de um BMW.
Isso resultou na produção de cerca de 162.000 automóveis e na conquista mundial de um dos microcarros mais famosos da sua época. Sem o Isetta, talvez nunca tivesse existido o BMW 2002 ou o E30. Foi um pequeno milagre de dois lugares que manteve o coração da marca a bater quando estava à beira da falência.
Na cidade, fazia todo o sentido. Com apenas 2,3 metros de comprimento (mais curto que um Smart), é equipado com uma única porta e todos os itens essenciais: teto de abrir e uma abordagem simples de condução.
Além de ser muito prático, podes estacionar de frente e sair diretamente para o passeio.
Debaixo do capot vive um motor monocilíndrico de 300 cc que produz uns generosos 13 cavalos. Sim, treze. Mas antes de te rires outra vez: o Isetta pesa quase o mesmo que a máquina de costura da tua avó, por isso chega aos 90 km/h. Em descida. Com vento a favor. E fé.
Pode ser lento, pode ser pequeno, pode parecer algo que Wallace & Gromit inventaram, mas também é um dos carros mais importantes da história da BMW.
E eu? Sou completamente apaixonada por ele. Porque às vezes, os melhores clássicos não são os mais rápidos, nem os mais caros… são os que nos contam histórias.
E este, conta a minha.
Algumas memórias:
XIV Trobada Internacional de Microcotxes a Manresa, 2013
Este foi um daqueles eventos que ficam mesmo guardados na memória. Talvez por eu ter tirado a carta em 2012 e, apesar de nessa altura andar com o Isetta todos os dias, este ter sido o primeiro grande evento em que participei e pude conduzir. Engraçado chamar grande a um encontro de microcarros… mas a verdade é que foi mesmo.

Foram 105 pequenos titãs de três e quatro rodas a percorrer as estradas de Manresa, em Espanha, num fim de semana que provou que tamanho não tem nada a ver com impacto. E se a chuva tentou atrapalhar, o feijão com tomate servido nos dois pequenos-almoços seguidos tratou de garantir que ninguém esquecia esta experiência tão cedo (nem o estômago).
O nosso BMW Isetta não era o único representante nacional. Aliás, Portugal brilhou em dose dupla: além do nosso, participou também um Isetta de três rodas do amigo Pedro Bessa que encantou todos os presentes e acabou por trazer para casa o prémio de melhor restauro.
Mas a verdadeira magia esteve na diversidade dos microcarros presentes. Tivemos a oportunidade de observar modelos realmente raros como:
- Zündapp Janus, o microcarro simétrico que olha para a frente e para trás ao mesmo tempo, tal como o deus que lhe dá nome;
- Isetta Velam, a versão francesa do nosso pequeno bávaro, com charme parisiense e, possivelmente, mais apreciador de croissants;
- Messerschmitt Tiger 500, que “andava nas horas” e fazia parecer que tínhamos entrado numa espécie de corrida aérea… mas em modo terrestre.
Entre curvas, chuva, feijão e carros que parecem saídos de desenhos animados, foi um fim de semana inesquecível. Um evento que nos marcou e ao qual esperamos voltar brevemente.
Algarve Classic Cars, 2019
Quando era pequena, ia de férias para o Algarve com os meus pais… tal como, vá, 80% das pessoas que estão a ler isto. Num desses anos, por mero acaso, passamos pela Marina de Vilamoura e demos de caras com um evento de carros antigos. Depois percebemos que era o Algarve Classic Cars, que se realizava anualmente e tinha base em Vilamoura — embora durante os três dias os clássicos percorressem várias zonas do Algarve.

O entusiasmo foi imediato quando vimos que, entre os clássicos participantes, estava um BMW Isetta. O meu pai meteu conversa com o proprietário, e lembro-me perfeitamente de ele comentar: “Um dia ainda vimos para aqui com o nosso.”
E, em 2002, fomos mesmo. Eu, com 9 anos e um entusiasmo proporcional ao tamanho do carro (ou seja, enorme), fui com o meu pai no Isetta, do Porto até ao Algarve. A minha mãe e o meu irmão seguiram atrás, num corajoso Peugeot 205, que fez de carro de apoio / armazém de malas / fornecedor de sandes. E participamos pela primeira vez no Algarve Classic Cars.
Essa viagem ficou a ecoar cá dentro, sempre a puxar por uma nova aventura. E em 2019… voltamos a ceder à tentação. Desta vez mais bem equipados: levamos não um, mas dois veteranos da família — o Chrysler e o Isetta. Saímos de Espinho às 7h da manhã e chegamos a Alcantarilha pouco antes das 21h. Pouca gente entende o prazer que é passar um dia inteiro ao volante, sob temperaturas a ultrapassar os 40 °C, a atravessar o país como quem vai ali só à padaria. Mas os sorrisos enormes que levamos durante toda a viagem complementam perfeitamente o que este Isetta representa: diversão.
Sem dúvida, foi uma das viagens de carro mais emocionantes que já fizemos. Ali, sentados confortavelmente, ombro a ombro, pelas estradas nacionais desde o Porto até ao Algarve. E a nova participação no Algarve Classic Cars não falhou no impacto. Desta vez, estiveram presentes as duas “jóias da família”, protagonistas de uma fotografia que ainda hoje é o fundo do meu computador: a imagem do David e Golias.
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Observar o efeito do Isetta nas pessoas também é uma grande parte da diversão, levando alegria onde quer vamos. Experimentem passar de Isetta no centro histórico do Porto num fim de semana e percebem o que estou a dizer.



