O MAUTO - Museu Nacional do Automóvel não é apenas mais um museu de carros. É uma jornada profunda e imersiva pela essência da história automóvel e do design italiano. Para quem já sentiu uma faísca de curiosidade sobre o que faz os carros funcionarem, ou o que realmente eleva uma máquina a uma forma de arte, o MAUTO oferece uma experiência incomparável.
Trezentos mil visitantes passam por lá todos os anos — e nós fizemos parte dessa estatística em 2024.
A coleção do MAUTO reúne mais de 200 carros, motociclos e motores de cerca de 80 marcas. Tudo é contextualizado com multimédia, cenários temáticos e explicações acessíveis que mostram como acontecimentos económicos, sociais e políticos moldaram a indústria automóvel.
O museu foi fundado em 1933 por Carlo Biscaretti di Ruffia — um visionário e apaixonado pelos motores — e passou por várias transformações, incluindo uma grande remodelação em 2011 que o colocou entre os museus automotivos mais inovadores do mundo.
Mas o que realmente faz o MAUTO especial não é só a coleção. É um lugar onde não vês apenas um carro; entendes o contexto, seu impacto e a engenhosidade que o trouxe à vida. O museu combina com sucesso a preservação histórica com técnicas modernas de narrativa, tornando-o incrivelmente acessível e fascinante para visitantes de todas as idades e origens. É uma instituição que realmente incorpora o espírito italiano de combinar genialidade em engenharia com um talento estético incomparável.

Turim: o único sítio possível para este museu
“Porquê Turim?” — perguntas tu. É como perguntar porque é que o fado é de Lisboa ou porque é que o chocolate quente é melhor em Paris. Turim é a capital automóvel de Itália. Mais de um século de indústria, inovação e design nasceram ali. Por isso ganhou o título de “Detroit da Itália”, mas com muito mais classe e muito menos neve.
Aqui nasceu a Fiat, em 1899, que se tornou uma gigante global. A Lancia também chamou Turim de casa, alimentando décadas de engenharia brilhante. A Alfa Romeo tem ADN de Milão, mas sempre teve um pezinho (ou quatro pneus) no ecossistema criativo da cidade.
E depois temos o design — aí Turim dá cartas como poucas cidades no mundo. Pininfarina, Bertone, Ghia, Italdesign Giugiaro e Vignale criaram ali alguns dos carros mais icónicos de sempre. Imaginem a concentração de talento e drama criativo no ar daquela cidade durante décadas… nem numa novela italiana.
Junta-se a isto a mão-de-obra especializada, as universidades de engenharia e uma cultura que respira inovação — e pronto: Turim era e continuará a ser o epicentro do design e da indústria automóvel italiana.
A exposição
Percorrer as suas salas do MAUTO é como assistir a uma aula de história e design, acompanhada por músicas dos anos 60 e o ronco dos motores de Fórmula 1, com vídeos e ecrãs a explicar tudo o que víamos.

A jornada começa exatamente onde deve: na génese do automóvel. É como se alguém abrisse uma porta secreta para o final do século XIX e dissesse: “Pronto, aqui está o início de tudo — divirta-se!”. Entramos num mundo onde estas primeiras máquinas eram recebidas tanto com admiração como com uma certa desconfiança… afinal, quem confiaria de imediato num carro que parecia mais uma carruagem com um ataque de modernidade?
Aqui encontramos peças verdadeiramente fascinantes, autênticos pioneiros que, apesar do visual artesanal e soluções técnicas por vezes criativas, pavimentaram o caminho para tudo o que viria depois. Dos primeiros veículos movidos a vapor aos motores a gasolina ainda tímidos, é impossível não sorrir ao ver como estas criações hesitantes evoluíram para aquilo que hoje conduzimos.
À medida que avançamos para o período pré-guerra, a coleção ganha personalidade — literalmente. Os carros começam a assumir formas, intenções e estilos próprios, refletindo tanto o espírito da época como os avanços técnicos que surgiam a um ritmo alucinante. Aqui convivem lado a lado luxuosos automóveis dignos da elite europeia e os primeiros gladiadores das pistas.
É impossível não ficar rendido à imponência de um Itala 35/45 HP de 1907, que parece sussurrar “classe” em cada curva, do Lancia Lambda de 1930 ou do Mercedes-Benz 540K de 1936 . Estes carros não eram meros objetos utilitários — eram símbolos de estatuto, demonstrações de engenharia e ferramentas perfeitas para alimentar a crescente paixão pela velocidade e aventura. E, claro, exibiam um nível de trabalho artesanal que hoje seria proibitivamente caro ou simplesmente impossível numa linha de montagem moderna.

O período pós-guerra marca uma mudança fascinante. A Europa reconstruía-se e, com isso, crescia a necessidade de transporte acessível. Entram em cena os adoráveis carros populares, muitos dos quais se tornariam autênticas instituições culturais.
Aqui, podemos admirar a simplicidade do Innocenti Mini, um modelo conhecido por todos mas fabricado pela marca italiana Innocenti e o carismático BMW Isetta 300 a sair da caixa Dinky Toys, não fosse ele uma autêntica miniatura!
Esta fase também marca o apogeu das casas de design italianas. É aqui que surgem as linhas puras, sensuais e quase pornográficas de um Alfa Romeo Disco Volante, por exemplo. Ou o Lancia D24, que carrega um legado verdadeiramente incrível de vitórias, desde a Carrera Panamericana, Mille Miglia ou Targa Florio. Ficamos na dúvida se este exemplar seria um dos que correu no Grande Prémio do Porto em 1954. Esta parte da coleção mostra de forma brilhante a capacidade da Itália de unir forma e função como ninguém.
Continuando a viagem por décadas sucessivas, vemos como o automóvel italiano se transformou num emblema mundial de estilo e desempenho. Esta é a parte do museu que faz qualquer entusiasta suspirar. “Dolce vita sobre rodas”? É praticamente isso.
E porque o MAUTO não vive só de memórias, há também um olhar assertivo sobre o amanhã — ou melhor, sobre os futuros possíveis. A seção dedicada aos protótipos é um pequeno parque de diversões para quem ama design experimental.
Aqui encontramos formas ousadas e ideias tecnológicas que, décadas atrás, soavam impossíveis. Muitos destes conceitos influenciaram carros de produção anos depois, outros ficaram como brilhantes exercícios de imaginação. E não deixa de ser delicioso ver protótipos dos anos 60 ou 70 que ainda hoje parecem mais futuristas do que muito do que se vende em 2025.
Chegamos então à famosa Sala das Corridas — e se até aqui o museu já tinha sido emocionante, aqui a pulsação acelera mesmo. Esta seção é um tributo vibrante aos grandes pilotos e às máquinas que desafiaram os limites da física e da coragem.
Desde os primeiros monopostos, que praticamente definiram o automobilismo moderno, até aos potentes carros de turismo e às lendas da Fórmula 1, a energia deste espaço é eletrizante. Alguns carros exibem marcas de guerra — arranhões, reparações, pequenos detalhes que contam histórias — e isso só aumenta o impacto emocional. Ver ali, tão perto, máquinas que venceram grandes prémios e foram pilotadas por lendas é uma experiência difícil de pôr em palavras. Mas sente-se. E muito.

E antes de sair desta sala, deparamo-nos com um Fiat 130cv de 1907, do qual vos falo um pouco: motor 4 cilindros de 16.000cc, com válvulas à cabeça e dependendo de um travão ao diferencial para travar o carro. Foi com este carro que Felice Nazzaro venceu o Grande Prémio de França.

Por fim, para equilibrar todo este glamour automotivo, o MAUTO dedica uma área especial ao verdadeiro coração de qualquer carro: o motor. Aqui, tudo ganha profundidade.
Modelos em corte transversal, esquemas explicativos, componentes expostos com detalhe quase cirúrgico… esta parte é absolutamente imperdível para quem gosta de compreender como as coisas funcionam. A evolução mecânica apresentada — desde os primeiros motores de combustão interna até tecnologias recentes — é clara, didática e muito cativante. Dá-nos uma nova apreciação pela precisão e complexidade por trás de algo que, no dia a dia, tratamos como garantido.
O edifício em si é uma maravilha: fluido, luminoso e confortável. A narrativa é fácil de seguir mesmo para quem não percebe nada de carros (mas vai perceber depois).
Os displays interativos são um dos pontos altos — vídeos, ecrãs tácteis, simuladores e conteúdos que nos fazem perder a noção do tempo. É didático sem ser aborrecido, moderno sem ser confuso.
O MAUTO não é apenas um museu; é uma celebração do engenho humano, do design, da velocidade e da cultura automóvel. Uma visita emocionante, educativa e inspiradora.
Se gostam de carros, vão amar.
Se não gostam, saem de lá a gostar um bocadinho.
Informações úteis
Duração da visita - Para apreciar verdadeiramente a coleção sem pressa, recomendo reservar pelo menos 3 a 4 horas. Para os verdadeiros aficionados por carros, é possível passar meio dia, ou até mesmo um dia inteiro, se se aprofundar em todos os elementos interativos e exposições especiais.
Preço dos bilhetes - 16€ (adulto). Podem comprar online ou no local — nós comprámos lá porque gosto de guardar o bilhete físico.
Onde ficamos - Apartamento em Lingotto, reservado pelo Booking — 23,80€ por pessoa. Excelente localização.
Onde comer - Paragem obrigatória: Osteria del F.I.A.T.. Ambiente típico, decoração imperdível para fãs de clássicos e comida deliciosa. Pedimos pasta (divinal!) e de sobremesa a torta 500, que recomendo vivamente.





















