Se há evento que marca pela diferença, é o The I.C.E..
Embora pareça intemporal, na verdade é uma adição relativamente recente ao mundo dos concursos de elegância. Realizado pela primeira vez em 2019, a ideia era simples e um tanto ousada: pegar na elegância de um concurso tradicional e levá-la para um lago gelado, a 1800 metros de altitude.
O nosso avião partiu na quinta-feira com destino a Milão - Bérgamo. Em Itália alugamos um glamoroso Peugeot 208 e arrancamos para 2h30 de viagem em direção à Suíça.
À medida que nos aproximávamos, o branco começou lentamente a invadir a paisagem. Já tínhamos estado na neve antes, mas nunca num cenário assim. Dava vontade de parar em todas as bermas para tirar fotos. Perdemos a conta ao número de vezes que dentro do carro se ouviu: “Uau” e “É mesmo bonito”.

Sexta-feira arrancamos cedo para St. Moritz. Sobre um lago congelado com temperaturas a rondar os -13 graus Celsius, seria de se esperar que estivéssemos a sofrer com o frio, mas a realidade é bem diferente. Ao dar de caras com um Bizzarrini 5300 GT a repousar sobre a camada de gelo de 60 cm de espessura que cobre a superfície do lago St Moritz, o frio é quase imperceptível.
O ambiente é sem dúvida especial. Os proprietários conversam abertamente, os espectadores circulam livremente e todos parecem estar ali pelo mesmo motivo: amor genuíno por carros.
Os 50 automóveis a concurso estavam alinhados em filas, divididos por categorias.
A primeira que nos surgiu foi a “Birth of the Hypercar”. Confesso que é a categoria que menos me entusiasma, apesar de ao mesmo tempo ser a que atraía os olhares mais jovens.
As restantes categorias eram bem mais a minha praia:
- “Legendary Liveries”
- “Open Wheels”
- “Barchettas on the Lake”
- “Icons on Wheels”
E aqui a coisa ficou séria.

Vou destacar alguns que me ficaram gravados:
- Porsche RSR de 1974, com a decoração “Toblerone”. Adorei a decoração!
- Na categoria dos pré-guerra o elegante Alfa Romeo 8C.
- Alfa Romeo Giulietta Spider Bertone, da coleção Lopresto. Já o queria ver há algum tempo. Lindo. Delicado. Perfeito.
- Na categoria “Icons on Wheels” a tarefa tornou-se quase cruel. Lancia Aurelia B24. BMW 507 em estado irrepreensível. Bizzarrini 5300 GT. Mas se tiver de escolher aquele que me fez mesmo apaixonar foi o Talbot-Lago T150C SS Teardrop, da The Pearl Collection. É daqueles carros que não se olha - contempla-se.
O que diferencia o ICE (além do elemento óbvio) é o movimento. Os carros não estão ali parados para cumprir protocolo. São conduzidos. Num circuito oval escavado sobre o lago.
Ver Ferraris, Bugattis e Porsches clássicos a atravessar o lago congelado é uma mistura improvável de automobilismo, ballet e uma leve dose de loucura invernal.
Pneus com pregos, traseiras a fugir, sorrisos largos. É tão divertido quanto fotogénico . E é um lembrete de que estas máquinas são mais felizes quando estão a ser conduzidas.

Agora vamos falar do ambiente em St. Moritz. No meio destes tesouros sobre rodas, havia muito botox, casacos de vison e carteiras Hermès. Quase uma passerelle improvisada no gelo. E, claro, muitos amiguinhos peludos, devidamente equipados para o frio - alguns mais bem vestidos do que nós.
E quando pensávamos que o cenário não poderia ficar mais surreal, fomos surpreendidos por seis caças F-5 Tiger da Força Aérea Suíça a sobrevoar o lago. O som ecoava pelo vale, refletia-se nas montanhas e vibrava no gelo. Carros da era de ouro do automobilismo a deslizar sob jatos militares, tudo emoldurado pelos Alpes.

Não posso terminar sem falar das estradas.
Foi uma pena estarmos num carro cuja diversão ao volante era nula.
Nas deslocações entre o nosso alojamento, em Poschiavo, e St. Moritz, cruzávamos diariamente o Bernina Pass, uma das estradas mais impressionantes da região. A mais de 2.300 metros de altitude, este traçado de montanha não é apenas um percurso cénico, é também palco do famoso Bernina Gran Turismo.
No último dia, ao vir embora de St. Moritz, os lagos alpinos cintilavam ao lado da estrada. Seguimos o GPS até chegar ao Maloja Pass. Ao olhar para o mapa, parece que alguém deixou uma criança desenhar com lápis de cera. A estrada serpenteia pela encosta com curvas apertadas que desafiam a lógica. Do topo, a sensação é quase vertiginosa. Parece que a estrada simplesmente desaparece montanha abaixo. E então percebes por que existem tantas curvas fechadas: é a única forma possível de descer aquilo.
Nunca tinha ouvido falar do Maloja Pass.
Agora é impossível esquecê-lo.
Mãos geladas, motores barulhentos, carros a derrapar no gelo. Honestamente, é difícil imaginar uma melhor forma de passar um fim de semana de inverno. Não há formalidades — apenas roupas extravagantes e máquinas incríveis, usadas com maestria, num lugar que valoriza ideias ousadas.

Dicas úteis
Voos: Voar para Milão é significativamente mais barato do que para Zurique. Pagamos cerca de 70€ ida e volta.
Aluguer de carro: Indispensável. Ficou por 285€ (4 dias, seguro total e taxa de atravessar fronteira).
Alojamento: Ficar em St. Moritz é muito caro. Poschiavo ou outras vilas próximas são alternativas mais realistas.
Refeições: A Suíça é cara. Fomos ao supermercado ainda em Itália e levámos grande parte das refeições preparadas.
Bilhetes: Comprar com antecedência pois os bilhetes são limitados e esgotam. Sexta-feira é mais tranquilo do que sábado.

























