A história por trás do Isetta

September 18, 2026
Automóveis

Já várias vezes me perguntaram se eu não vendia o Isetta e a resposta é sempre a mesma: “Por valor nenhum.”

Muita gente não consegue perceber isso. Mas a realidade é que, ao longo destes anos, criamos uma ligação tão grande com este carrinho que já não conseguimos imaginar como seria se ele não estivesse na nossa garagem.

É uma coisa que, de certa forma, se perdeu muito nos dias de hoje. A maioria dos carros são substituídos ao fim de meia dúzia de anos ou trocados por modelos novos quando acabam os contratos de leasing. Mas quando crescemos com um bem físico tão presente no nosso dia a dia, nos bons momentos e nos maus, é inevitável criar-se uma espécie de relação que parece impossível de terminar.

E o Isetta já passou por muito. Muito mesmo.

Quando o meu pai o comprou, em 1982, veio acompanhado de uma pasta que o antigo dono, o Sr. Levi, tinha guardado religiosamente. Lá dentro estava o historial de praticamente tudo o que tinha sido feito no carro: chapa, pintura, mecânica, eletricidade e tudo o que fosse necessário para o manter a andar.

Mas havia mais.

O Sr. Levi também guardava os registos das viagens que fazia com o Isetta e até algumas das multas que tinha apanhado. Faziam parte da história do carro e, por isso, também tinham lugar naquela pasta.

Apesar de tentar manter o Isetta no melhor estado possível, os tempos eram outros. Não havia o acesso à informação que temos hoje, a facilidade em encontrar peças era outra e, sinceramente, naquela altura era simplesmente um carro velho. Não tinha propriamente o valor que tem hoje.

Quando chegou às mãos do meu pai era cor de laranja “tijolo”, tinha podres onde quase cabia uma mão e um aspeto geral bastante cansado.

Tentar dar uma volta ao quarteirão era um desafio capaz de fazer o condutor mais experiente sair do carro a transpirar. Entre amigos, chegavam a fazer apostas para ver quem conseguia arrancar sem deixar o Isetta ir abaixo.

Mas o entusiasmo era muito e começaram logo a meter mãos à obra.

Primeiro trataram da mecânica, para tornar o carro um pouco mais “guiável”, e depois da chapa e da pintura, para impedir que os problemas se agravassem. Na altura, o meu pai optou por pintá-lo de duas cores: azul-marinho e creme.

Algumas coisas eram feitas noutras oficinas, até ao dia em que uma dessas experiências correu particularmente mal.

Depois de um eletricista ter “reparado” o sistema de carga, o Isetta pegou fogo na pequena distância entre a oficina e a porta de casa. A partir daí, decidiram que o carro nunca mais seria entregue a uma oficina. Tudo o que conseguissem fazer, seria feito “in house”.

Depois de muitas dores de cabeça, muitos cabelos perdidos e uma ou outra asneira pelo caminho, o Isetta acabou finalmente por chegar a um estado de fiabilidade que permitia conduzi-lo com alguma facilidade e, vá, algum conforto.

Estávamos em 2002. O carro já tinha sido novamente pintado, desta vez de azul Baviera, e começava finalmente a transmitir alguma confiança. Foi então que o meu pai decidiu inscrevê-lo no Algarve Classic Cars, para perceber até onde aquele pequeno carro conseguia ir. Eu tinha 9 anos e lembro-me perfeitamente dessa viagem.

Foi o primeiro rally que fiz com o meu pai e ficou para sempre na minha memória.

Os anos foram passando e eu ficava sempre contente quando chegava o fim de semana e íamos a algum passeio com o Isetta. Mas ficava igualmente contente nos sábados que passava ao lado do meu pai, a ajudá-lo a melhorar o carro aos poucos.

Naturalmente, quando tirei a carta, era o carro com que eu mais queria andar. No dia a dia, nos passeios, nos eventos de clássicos… o Isetta era sempre a minha primeira escolha.

Foi também o primeiro carro em que vi o conta-quilómetros passar dos 99.999 km para os 0 km. E, ao procurar o registo dos quilómetros para encontrar a fotografia desse momento, descobri uma coisa ainda mais engraçada: desde 2002 (o ano em que participamos no Algarve Classic Cars) já fizemos mais de 100.000 km com o Isetta.

Claro que, quando se usa tanto um carro, também há alturas em que as coisas correm mal.

O Isetta já capotou numa rotunda. Fomos cuspidos do carro e acabámos no hospital, entre levar pontos e fazer muitos exames.

Já esteve envolvido num choque em cadeia em que conseguiram torná-lo ainda mais curto do que ele já é.

Mas nunca desistimos dele. Por mais difícil que fosse, sempre tratamos de o voltar a pôr na estrada e devolvê-lo ao seu esplendor.

Não é nenhum garage queen. Nem queremos que seja. É o nosso menino.

Tem os seus defeitos, já sofreu muito e está longe de ser perfeito. Mas temos histórias a mais com este carro para alguma vez conseguirmos imaginar a nossa garagem sem ele.

Desde as faturas dos anos 60, quando o Sr. Levi o levava ao Batista Russo para arranjar, até aos dias de hoje, em que estamos a prepará-lo para embarcar numa viagem de 5.000 km pela Europa, o Isetta foi sempre um grande companheiro. Com ele vivemos aventuras, conhecemos pessoas que entretanto se tornaram amigos e acumulamos histórias que provavelmente nunca teríamos vivido de outra forma.

Com o passar dos anos, integrou-se na nossa família quase como se fosse um animal de estimação.

Vamos continuar a fazer os melhoramentos que conseguirmos. Vamos continuar a sujar as mãos, a resolver problemas e, acima de tudo, a usá-lo da melhor maneira que sabemos. Porque é isso que queremos para ele. Não queremos que fique parado numa garagem, perfeito e intocável. Queremos continuar a criar histórias.

E agora, quase 45 anos depois de ter chegado à nossa família, está prestes a enfrentar mais uma grande aventura: 5.000 km pela Europa.

Só fico a pensar numa coisa: Será que o Sr. Levi ficaria orgulhoso do seu lindo Isetta se o pudesse ver hoje?

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P.S. Porque esta história não é feita só de um carro, quero deixar aqui três grandes agradecimentos. Ao meu pai, por razões óbvias — por ter comprado este carro tão especial, por me ter posto o volante nas mãos desde cedo, por apoiar as nossas aventuras e por manter o carro sempre fiável. À minha mãe, que nunca reclamou do tempo que passamos à volta dos carros e que, de uma forma ou de outra, acaba sempre por nos acompanhar nestas loucuras. E ao meu irmão, a única pessoa do mundo com quem eu poderia fazer esta viagem. Que me ajuda, que me dá na cabeça sempre que é preciso e que me faz sorrir há 27 anos.

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