Dia 1
Todos os anos, no verão, fazemos uma viagem em família com os nossos clássicos. No verão de 2024 fomos a Salamanca: nós (família), o Corolla, o Mazda 818 e o BMW 318i (E30).
Tínhamos um encontro de família marcado em Braga, portanto aproveitamos esse local como ponto de partida para a viagem. O percurso foi traçado com o objetivo principal de usufruirmos das estradas e paisagens. Assim sendo, o primeiro troço foi a serpenteante EN304, uma das melhores estradas em Portugal para desfrutar da condução. Antes de lá chegarmos, tivemos de fazer uma rápida paragem estratégica para que o Henrique tirar os tampões do 818 (há um logo historial de registos de tampões a fugir em plenas curvas neste carro). Assim feito, os 3 carros arrancaram por entre as mil e uma curvas acompanhadas por paisagens de cortar a respiração.
Tínhamos estipulado fazer uma paragem no Miradouro do Ujo, portanto, depois de passar Vila Real, seguimos pelo Douro Vinhateiro, num percurso entre estradas de excelente qualidade e panoramas avassaladores.
O Miradouro do Ujo é o local ideal para admirar a beleza do Vale do Tua. Aqui é possível encontrar uma varanda que permite observar o Vale e a albufeira do rio Tua. Aproveitamos para tirar umas fotografias de família e eu certifiquei-me que testava se a qualidade do alcatrão era boa com os meus joelhos, deixando mais uma cicatriz para recordação.

Neste tipo de viagens, para não gastarmos tanto dinheiro em refeições e evitarmos perder 2 ou 3 horas dentro de um restaurante, optamos por fazer sempre os almoços em modo piquenique. Assim sendo, vi que na Foz do Tua, entre a linha de comboio e o rio, havia um agradável parque de merendas, e foi lá que fizemos a paragem seguinte. Para nossa sorte o parque tinha um relvado muito bom, limpo e com algumas sobrinhas. Almoçamos e ainda aproveitamos para dar um mergulhinho e refrescar antes de seguir viagem.
O objetivo seria estarmos pelas 17h00 na praia fluvial da Foz do Sabor. Não estivemos.
Começamos por subir a M634 até Carrazeda de Ansiães. Uma estrada com paisagens incríveis, pelo meio das vinhas, com o tipo de curvas ideiais para estes carros. A pior parte veio depois. No Google Maps tinha visto uma estradinha em Seixo de Ansiães, mesmo juntinho ao rio, que me pareceu bastante bonita. E era. O problema era o piso. Para conseguirmos fazer aquele troço, no meio de tanto buraco, terra e pedras, tivemos de ir sempre a uma velocidade muito baixa (o equivalente a ir a pé quase). E o melhor ainda estava por vir. Com mais de 40º, e nós literalmente no meio do nada e sem águas, fizemos cerca de 10 kms até à aldeia seguinte, por uma “estradita” de subida constante. Já estava tudo com a língua de fora (nós e os carros) quando conseguimos alcançar um café aberto e pedir águas a 3€ cada.
Chegamos à praia fluvial pelas 19h e ainda deu para uns mergulhinhos antes do jantar.
Ficamos numa estadia que reservamos através do booking em Torre de Moncorvo.
O primeiro dia estava feito: 256kms.

Dia 2
Arrancamos em direção a Vila Nova de Foz Côa. Parámos para tomar café e acabámos por ficar ali mais tempo do que o previsto — não por causa do café, mas por causa da vista. Tínhamos uma das paisagens mais esmagadoras do país como pano de fundo: o ponto onde o Côa se entrega ao Douro. Há encontros que parecem coreografados pela natureza — e este é, sem dúvida, um deles.
Perfeitamente integrado na envolvente, no topo de uma colina dominante sobre margem do rio Côa, o Museu do Côa impõe-se de forma discreta, quase como se sempre tivesse pertencido ali. Do seu miradouro desfruta-se de vistas privilegiadas sobre a paisagem que resulta da união de dois Patrimónios Mundiais: o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Alto Douro Vinhateiro. E que senhora de paisagem.
Ali também começam os Passadiços do Côa, inaugurados em 2022 e rapidamente transformados num dos pontos incontornáveis de qualquer roteiro pela região. São cerca de 900 metros de extensão (1,8 km ida e volta), com um desnível de 160 metros que se traduz em 890 extenuantes degraus — um desafio físico que promete recompensas visuais à altura.

Por questões logísticas, desta vez ficaram por fazer. Mas há lugares que não se perdem — apenas se adiam. E estes ficaram, definitivamente, na lista para a próxima visita.
Seguimos viagem pelas nacionais, daquelas que obrigam a abrandar e olhar em volta. A paragem para piquenique aconteceu em Castelo Rodrigo.
Estamos nas Terras de Ribacoa, onde as paisagens se estendem em planaltos quase infinitos, interrompidos aqui e ali por fortalezas que parecem vigiar o horizonte há séculos. Castelo Rodrigo surge altivo, pousado sobre o vale do Côa e encostado aos contrafortes da Serra da Marofa.
Atravessar a Porta do Sol é como transpor um portal entre dois mundos. Lá dentro, o melhor é simplesmente andar sem rumo. Passear à toa pelas ruas medievais, descobrir os pequenos detalhes que lhe dão cor: inscrições hebraicas, cruzes talhadas nas ombreiras e aduelas das portas — marcas da presença de judeus e novos cristãos que o tempo não apagou.
Castelo Rodrigo não se visita. Vive-se devagar. E talvez por isso tenha sido o cenário perfeito para estender a toalha, abrir a cesta e fazer do almoço um daqueles momentos simples que acabam por ficar na memória muito mais do que qualquer plano bem definido.
Fizemos ainda uma paragem para beber uma caña na Plaza Mayor e fomos para a nossa estadia.
Passamos a fronteira e entramos no nosso país vizinho, com destino a Ciudad Rodrigo, a apenas 25 quilómetros da linha que separa Portugal e Espanha.
Ciudad Rodrigo é daquelas pequenas cidades que nos surpreendem sem esforço. O seu centro histórico muralhado é um verdadeiro tesouro, feito de ruas e ruelas empedradas que se entrelaçam, palácios senhoriais, igrejas e praças cheias de vida.
Caminhámos sem grande plano, deixando que a cidade nos guiasse. A inevitável paragem aconteceu na Plaza Mayor, onde brindamos ao dia com uma caña bem fresca.
Terminamos o segundo dia com 123 quilómetros.

Dia 3
Começamos o dia a subir até à Peña de Francia, que se ergue a 1.727 metros de altitude e é acessível de carro.
A estrada SA-CV-178 foi daquelas que nos fazem desligar a música e abrir ligeiramente o vidro só para ouvir o motor e o silêncio da serra ao mesmo tempo. Curva atrás de curva, vistas amplas, montanhas a perder de vista.
No topo, encontramos o Santuário da Virgen de la Peña de Francia, local de peregrinação desde o século XV. Em dias limpos, dizem que se vê até à Serra de Gredos. Nós vimos horizonte infinito e ficamos satisfeitos.

O nosso piquenique habitual aconteceu na área recreativa Las Eras, já dentro do Parque Natural de Las Batuecas. Depois do almoço, partimos finalmente para o nosso destino principal: Salamanca.
Já Cervantes escreveu: “Salamanca faz com que todos aqueles que desfrutaram da agradável experiência de viver nela, anseiem regressar.” Não foi preciso lá viver para percebermos o que ele queria dizer.
Património Mundial da UNESCO e considerada uma das cidades mais belas de Espanha, Salamanca ganhou identidade com a fundação da universidade, que durante séculos foi das mais importantes da Europa, rivalizando com Oxford, Bolonha e Paris.
Conhecida como La Dorada, por causa dos seus edifícios de arenito dourado, a cidade parece brilhar sob o sol intenso.
Começámos pela Casa de las Conchas. A fachada é decorada com mais de 300 conchas esculpidas na pedra, o que deu origem a várias lendas — incluindo a de que existe um tesouro escondido debaixo de uma delas.
Seguimos depois para a Universidad de Salamanca. Lá dentro encontra-se uma das bibliotecas mais antigas do mundo e o famoso teto astronómico, conhecido como El Cielo de Salamanca. É impossível não sentir o peso da história ali — séculos de estudantes, debates, ideias e noites mal dormidas muito antes de existirem exames online.
Visitamos também a Catedral de Salamanca (na verdade, duas em uma — a Velha e a Nova, lado a lado) e deixamo-nos perder pelas ruas até acabarmos na Plaza Mayor. Paramos para um merecido tinto de verano, seguido de tapas maravilhosas que nos fizeram ficar sentados mais tempo do que o previsto. Mas ninguém vai a Salamanca com pressa.
O terceiro dia terminou com 153 quilómetros feitos.

Dia
Salamanca foi maravilhosa, mas chegou o momento de apontar o nariz dos carros para casa. Desta vez, cruzamos a fronteira por Barca d’Alva.

Seguimos pela sinuosa N221, sempre com o Douro a acompanhar-nos, ali mesmo ao lado, a marcar a fronteira entre Portugal e Espanha.
Entretanto, despedimo-nos do troço ribeirinho e viramos para o interior, rumo ao coração das montanhas, pela CM1181. Nas extremidades da estrada, a sinalética avisa: “Estrada com declive acentuado.” Não é um simples aviso. É praticamente uma promessa. E nós gostamos de promessas destas.
Em poucos minutos percebemos que estávamos a ganhar altitude de forma generosa. A CM1181 segue como um patamar privilegiado suspenso sobre o vale: ora curvas pronunciadas, ora retas panorâmicas. Lá ao fundo conseguíamos ver parte do percurso que tínhamos acabado de fazer, envolto nos verdes e castanhos das paisagens transmontanas, em contraste com o azul do rio.
Seguimos até ao Miradouro do Penedo Durão, um dos mais emblemáticos do Douro Internacional. E percebe-se porquê. As vistas sobre os escarpados penhascos do canhão rasgado pelo Douro são absolutamente soberbas. Ficámos ali algum tempo, sem pressa, como se o tempo também tivesse decidido abrandar.
A hora do piquenique foi na Praia da Congida. Relvado, sombra, calor a sério. Com as temperaturas a convidarem, ainda houve tempo para uns mergulhos nas piscinas municipais ali ao lado. Não estava no plano inicial, mas as melhores decisões raramente estão.
Ao final do dia seguimos por Mogadouro até Macedo de Cavaleiros, onde ficamos hospedados. E claro, estando em Trás-os-Montes, havia um dever quase moral a cumprir: comer uma posta. O restaurante Cinco Croas tratou disso com mestria. Soube pela vida — daquelas refeições que fecham o dia com chave de ouro (e digestão lenta).
Nesse dia somamos 268 quilómetros.
Dia 5
A viagem estava quase a chegar ao fim. Aproveitamos o último dia para recarregar energias na praia fluvial da Albufeira do Azibo, um pequeno paraíso em Trás-os-Montes.
A viagem aproximava-se do fim — e há sempre aquele sabor agridoce nos últimos capítulos. Aproveitamos o último dia para recarregar energias na praia fluvial da Albufeira do Azibo, um verdadeiro pequeno paraíso escondido em Trás-os-Montes. Água calma, céu aberto, silêncio bom. Foi o cenário perfeito para fechar esta aventura.


























