Goodwood Revival: Uma viagem mágica no tempo

August 28, 2026
Eventos

Há quem sonhe com praias paradisíacas. Eu sonho com motores a roncar, cheiro a gasolina e gente vestida à moda dos anos 50.

Em 2024, decidi finalmente riscar da lista um dos maiores eventos de automóveis do mundo: o Goodwood Revival. E claro que não fui sozinha — juntei à aventura o meu irmão e os meus primos Gustavo e João.

O primeiro passo foi comprar os bilhetes (alfândega). O segundo foi pensar nas vestimentas que íamos levar. Sabíamos que ir vestidos à época era obrigatório – e não tínhamos intenção de ser os únicos “forasteiros temporais” do recinto. Para os homens foi simples: calça bege, camisa, suspensórios e boinas. 

Eu optei por um estilo anos 50: vestido florido de saia rodada, colar e pulseira de pérolas, luvas brancas e sabrinas. Estava pronta para desfilar no evento ou para aparecer num anúncio da antiga Singer. E assim que chegámos ao recinto, sentimo-nos perfeitamente enquadrados. Sem dúvida, é um ambiente único que só quem está lá consegue sentir.

Ponto menos positivo: as sabrinas brancas não se enquadraram tão bem no parque lamacento dos automóveis. 

O Goodwood Revival

A zona rural de Sussex, em Inglaterra, é pitoresca e singular. O gado e os celeiros salpicam o horizonte, espreitando através de uma leve camada de nevoeiro matinal, e tudo é tranquilo. Bem, normalmente.

Durante três dias, a pequena cidade de Chichester, em Sussex, onde se situa a propriedade de Goodwood, acordou todas as manhãs com o rugido estrondoso de um trio de Spitfires da Segunda Guerra Mundial a mergulhar nos céus, seguido do rugido de motores Ferrari, Jaguar e AC Cobra conduzidos a todo o gás durante o dia. Bem-vindo ao Goodwood Revival, um festival que nos transporta diretamente para a Grã-Bretanha do pós-guerra, com tudo o que isso implica: carros de corrida clássicos, moda vintage, chá às cinco e, claro, muita elegância.

O circuito de Goodwood abriu as portas pela primeira vez logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, e rapidamente se tornou palco de algumas das corridas mais emocionantes do Reino Unido. Durante quase duas décadas, entre 1948 e 1966, o asfalto de Goodwood viu passar alguns dos carros e pilotos mais icónicos da época.

E é exatamente esse o período que hoje serve de referência ao Goodwood Revival: apenas automóveis que competiram (ou poderiam ter competido) entre 1948 e 1966 são aceites para correr no evento.

O circuito fechou em 1966 e ficou em silêncio durante mais de 30 anos, até 1998, quando o Duque de Richmond decidiu reabrir o espaço com uma ideia brilhante: recriar o espírito da era dourada do automobilismo.

Hoje, o Revival atrai cerca de 150 mil visitantes e é uma verdadeira cápsula do tempo. Tudo é fiel ao período — desde os edifícios às roupas — como se o relógio tivesse parado algures em meados dos anos 60.

O romance e o glamour dos anos 50 e 60 são injetados em tudo. As pessoas vestem-se com roupas de época para ver os carros clássicos a acelerar pela pista, cujo traçado até hoje se encontra inalterado, e reviver os dias de glória. Dias que muitos de nós, como eu, não tivemos a oportunidade de viver, mas que podemos experimentar através deste evento. E se há algo que fica claro ao fim de poucas horas ali é isto: ninguém sabe recriar este espírito como os ingleses. Há um cuidado quase obsessivo com o detalhe, uma dedicação genuína à autenticidade e um respeito enorme pela história.

A atmosfera é incrível, com pessoas de todas as idades a assistir aos carros antigos de todas as modalidades de corrida, seja Fórmula 1 ou GT, a deslizar pela pista. Muitos dos clássicos que se encontram no recinto podem ser vistos a esgotar o conta-rotações, a alcançar 260 km/h nas retas. Uma coisa é ler sobre estas máquinas nos livros, mas é outra experiência completamente diferente vê-las a andar à velocidade máxima, ouvir o motor no limite, sentir o cheiro do escape e ver os condutores a mexerem no volante várias vezes por segundo só para manterem o carro na pista. Não é invulgar os condutores perderem o controlo e baterem com estas máquinas de valor incalculável numa parede. Faz tudo parte da experiência do Goodwood Revival.

Mas não se trata apenas de carros. Com o passar do tempo, o festival transformou-se numa imitação exata da Inglaterra dos finais dos anos 40 aos anos 60, com a inclusão de aviões, motos, entretenimento e roupas, conferindo um elemento de autenticidade ao evento. Há tanta coisa a acontecer que um dia simplesmente não é suficiente, no entanto, demos o nosso melhor para absorver o máximo possível. Para além das emocionantes corridas, aqui estão algumas das minhas partes favoritas deste evento.

Aviões da época

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Circuito Automóvel de Goodwood funcionou como RAF Westhampnett. O local estava perfeitamente posicionado perto da costa como um local de aterragem auxiliar para os Spitfires e Hawker Hurricanes. Agora, durante o Goodwood Revival, o local acolhe aviões anteriores a 1966 que são notáveis e invulgares. Todos os dias, o espetáculo abre com um trio de Spitfires a sobrevoar a zona, dando o mote para o dia.

O som das pessoas a pisar a relva lamacenta, a banda que tocava perto e o grupo de jovens cadetes da aeronáutica a interagir com os visitantes ​​compõem um cenário encantador. Além disso, o ruído dos motores de helicópteros sempre a chegar parecem um acompanhamento adequado, abraçando o espírito de um campo de aviação ativo.

Ver os aviões de perto revela o quão espetaculares e variados são, com a diferença de tamanhos a refletir a variação das funções para os quais foram projetadas. Das 18 máquinas raramente vistas da história da aviação presentes, destacou-se o Westland Lysander — um avião que voou pela primeira vez em 1938 como um protótipo antes de ser usado em operações clandestinas durante a guerra. Havia também outros modelos que nos chamaram a atenção, como o Tiger Moth de 1941, usado na época para treinar recrutas da RAF, ou o Spitfire de 1944 – um avião que estava ativo no Dia D e mantém 80% da sua fuselagem original.

Proximidade nos paddocks

Há uma razão para não poder estar nos paddocks durante a maioria dos eventos de corrida: é um ambiente perigoso com muita coisa a acontecer. Mecânicos a mexer, carros de corrida a movimentarem-se, óleos e combustíveis a serem substituídos e equipas a definirem estratégias. Mas não em Goodwood.

Durante as corridas, podemos circular livremente por alguns dos paddocks e assistir de perto à preparação — e muitas vezes à reparação — dos carros em tempo real. É ali, entre ferramentas, mãos sujas de óleo e motores ainda quentes, que se sente verdadeiramente o pulso do evento. Outros paddocks estão delimitados por uma discreta cerca de madeira, acessível apenas aos membros do GRRC.

A diversidade de veículos a competir é impressionante. Vê-se de tudo, desde elegantes Alfa Romeo pré-guerra até muscle cars americanos dos anos 1960, cada um representando um capítulo diferente na história automóvel. Os carros são mantidos nos mais altos padrões, permitindo que os entusiastas apreciem as maravilhas da engenharia que definiram gerações de automobilismo.      

E atenção: não olhem só para os carros. Enquanto andávamos maravilhados com a perfeição das máquinas, o João cruzou-se casualmente com o Damon Hill — ex-piloto de Fórmula 1 e campeão mundial. 

Parques de estacionamento

Pelos meus cálculos aproximados, julgo que, mesmo que se retirasse as centenas de carros que participam nas corridas do Goodwood Revival, ficaríamos com a maior exposição de carros clássicos de Inglaterra apenas no parque de estacionamento do evento. É um verdadeiro espetáculo, onde encontramos carros de todas as Ilhas Britânicas e da Europa continental.

Centenas de clássicos, desde pré-guerras como Bentley, Chrysler ou BNC a Ferraris 330 ou 250 GT Lusso perfeitamente restaurados, alinham-se no lamacento parque de estacionamento.

Ambiente

O que realmente diferencia o Goodwood Revival não são apenas os carros, mas a atmosfera. Assim que pisamos o terreno do Goodwood Circuit, somos transportados para uma era diferente. Todo o evento é impregnado de uma sensação de nostalgia, com os participantes encorajados a vestirem-se com roupas apropriadas para as décadas de 1940, 50 e 60. É tanto um desfile de moda quanto um evento de carros, e todos desempenham seu papel na recriação do glamour e charme da Grã-Bretanha do pós-guerra.

A atenção aos detalhes é extraordinária. O local em si é meticulosamente estilizado para evocar o passado, desde as boxes e tendas de hospitalidade, até à sinalização e às barracas de comida. Andar pelo terreno parece pisar um set de filmagem, com autocarros vintage, motas clássicas e anúncios de época a aumentar a autenticidade.

A música também desempenha um papel central na atmosfera do Revival. Bandas ao vivo tocam swing, rock 'n' roll e jazz, com dançarinos a acompanhar, aprimorando ainda mais a experiência da viagem no tempo.

E como não podia deixar de ser, o Isetta também marcou presença neste evento. Não o meu, mas um bonito exemplar azul e branco de 3 rodas, que encontrámos quando nos deparámos com a recriação de antigas oficinas da BMW. 

Corridas emocionantes

Um dos principais destaques do Goodwood Revival são as emocionantes corridas que ecoam a emoção crua das corridas dos anos 1950 e 60. Uma pista em que todos os carros são conduzidos ao limite.

No entanto, na nossa opinião, o melhor espetáculo foi dado pelo St. Mary's Trophy. No meio de um grupo extremamente entusiasmado de senhoras e senhores britânicos na bancada, o teto explodia quando passava o ágil Mini Cooper S e o Jaguar MK II, a “brincar” lado a lado e a varrer a curva antes da chicane. A combinação de ação agressiva na pista e o apoio contagiante das bancadas resultou numa quantidade histórica de arrepios da cabeça aos pés. Não demorou muito para que o último carro desfilasse a acenar para nós sob aplausos altos durante a volta de honra.

O Goodwood Revival superou as altas expectativas. Não é apenas mais um evento de carros clássicos. É uma cápsula do tempo.  Que atmosfera, que ação, que festa! 

Ficaste convencido? Então deixo aqui algumas dicas:

Viagem

O aeroporto de Gatwick fica a cerca de 1 hora de goodwood. Com alguma antecedência, os voos são acessíveis - as nossas viagens de ida e volta ficaram em 149,28€ por pessoa.

Transportes

Como éramos 4 (e tínhamos planeado visitar o National Motor Museum em Beaulieu), optamos por alugar um carro através da Discover Cars. Processo muito simples e o valor foi 59,78€ por pessoa com seguro incluído. Claro que a este valor será necessário juntar o combustível que gastares na viagem e ter cuidados redobrados nas rotundas inglesas.

Alojamento

Ficámos numa casa em Walberton, a 15 minutos do circuito, alugada pelo Airbnb: 67,66€ por pessoa/duas noites. Simpático e prático.

Estacionamento

Gratuito, mas com um detalhe importante: lama. Muita lama. Se fores num carro clássico, podes estacionar no parque próprio.

Bilhetes

Tentamos comprar para os três dias, mas em julho já só havia bilhetes de domingo (têm de ir 2 dias para aproveitarem o que o evento tem para oferecer). Custo: £100 por pessoa + £15 de envio. O melhor? Os bilhetes são enviados por correio e são um autêntico regalo. Parece realmente que estamos a abrir correspondência enviada diretamente dos anos 50 ou 60 para a nossa morada.

Restauração

Dentro do recinto há inúmeras opções para refeições, espalhadas por várias zonas do circuito. Claro que não vais comer um bacalhau assado na brasa ou umas tripas à moda do porto. Conta com refeições rápidas por volta dos 20€.

Bancadas

Não compramos bilhetes para as bancadas. Como sabíamos que ao longo do circuito havia vários pontos onde era possível ver as corridas sem ser nas bancadas, optamos por fazer isso. Se agora voltávamos a fazer o mesmo? De certeza que não. 

Tivemos sorte de uns amigos partirem mais cedo e deixarem os bilhetes de bancada deles — e a diferença é enorme! A visibilidade e o ambiente nas bancadas valem cada libra.

Transporte dentro do circuito

Um trator (sim, um trator!) percorre todo o recinto com paragens estratégicas. É grátis e super útil para poupar pernas.

Dica extra
Levem guarda-chuvas e capas de chuva. Se por ventura não utilizarem, podem considerar-se sortudos.

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